O novo modelo de negócios da indústria musical

Por muito tempo o sucesso de um artista ligado à música foi diretamente relacionado ao número de álbuns que ele vendia, assim como esta venda era a responsável pelos seus rendimentos. A indústria fonográfica funcionava de uma maneira muito simples: o artista entrava em estúdio, gravava em média de 10 a 15 canções, elas eram compiladas em um disco (e mais futuramente, em um CD) que era enviado para venda e, desta venda, todos sobreviviam: artistas, produtores, gravadoras, distribuidoras e lojas de discos. Tudo o que vinha depois era apenas para divulgar o álbum.

E assim funcionou por muito tempo. Se você queria ouvir uma música ia até uma loja e comprava um disco ou CD. Ou esperava horas ou dias até ela tocar na rádio e daí gravá-la em uma fita cassete. Claro, você poderia gravar também este álbum em uma fita cassete mas, além da vida útil deste dispositivo não ser muito grande, você só poderia gravar se alguém tivesse comprado o álbum.

Com isto, muita gente ganhou dinheiro, muito dinheiro por sinal. Surgiram os artistas multimilionários, as grandes gravadoras, os produtores disputados a tapa por todos. Impérios se criaram apenas vendendo discos. E artistas como Michael Jackson venderam 110 milhões de cópias de seu Thriller e AC/DC, com Back In Black e Pink Floyd, com The Dark Side of the Moon, venderam 50 milhões cada.

Mas o mundo gira, e as coisas mudam. Primeiro surgiu a internet e a possibilidade de compartilhar arquivos virtualmente com pessoas de qualquer lugar no mundo. Depois, foi criado o MP3, um arquivo musical em formato comprimido. E então, os primeiros MP3 Players. Desta forma, com estas três variáveis, o modelo de negócio vigente da indústria fonográfica morreu.

Ninguém mais precisava comprar um álbum para ouvir uma música, você poderia busca-la em qualquer lugar do mundo e tê-la no seu computador ou no seu MP3 Player. Culpa do Napster? Não, ele foi apenas uma ferramenta, a primeira, a mostrar como trocar música era fácil. E, da pior maneira, a indústria fonográfica e alguns artistas perceberam que fechá-lo não resolveria nada. A porta estava aberta. Não, aberta não, derrubada, e não havia mais como fechá-la.

Porém, diferente do discurso proferido naquela época, e que ainda encontra eco hoje em dia, a decadência da indústria fonográfica não significa a decadência da indústria musical, muito pelo contrário. A morte de um formato de difusão musical não significa a morte da música.

E foi o que aconteceu. A internet trouxe diversas novidades para a indústria musical: facilitou e barateou a gravação de álbuns; ampliou a divulgação de um artista, derrubando as limitações geográficas; permitiu que a rede escolhesse os seus ídolos; criou dispositivos que permitiram levar a música para qualquer lugar. Portanto, é fato que nunca se ouviu tanta música quanto atualmente.

Mas, se isto acontece, porque ainda ouvimos que a indústria musical está fadada a desaparecer? Isto acontece principalmente por dois motivos: o primeiro é que alguns membros desta indústria não souberam se adaptar a esta nova realidade e  querem continuar ganhando dinheiro com a venda de discos. O CD vende uma fração do que vendia antes,  afinal eu mesmo tenho mais de 500 CDs em casa mas não compro nenhum há mais de dois anos. Porém, novas possibilidades surgiram. Shows deixaram de ser apenas um meio de divulgação para se tornar um ótimo negócio, como pôde comprovar Roger Waters e seus 158,1 milhões de dólares faturados em 2011. E nunca se venderam tantos itens como camisetas, DVDs, itens de colecionadores e, pasmem, CDs com conteúdos exclusivo para fãs. Neste sentido, a banda Pearl Jam dá uma aula de marketing em todos.

E a segunda razão é que o dinheiro mudou de mãos. As grandes companhias fonográficas não se adaptaram às mudanças e viram seu  monopólio desaparecer. Artistas perceberam que não precisavam mais delas para gravar um álbum, divulgar sua música. E assim, as que não perceberam isto a tempo, fecharam.

A internet fechou uma porta, mas abriu dezenas de janelas. O modelo de negócio da indústria musical se modificou drasticamente, e como toda mudança, há um tempo necessário para a adaptação. E é isto que presenciamos agora, que o espanto inicial passou.

Artistas perceberam que, assim como a Cauda Longa diz, existe mercado para todos, mesmo que eles toquem polka cantada em chinês. Pense, quando você poderia imaginar assistir um show de uma banda norte-americana do Kentucky, sem nenhum álbum lançado no Brasil, sem ir até os EUA? Pois foi o que aconteceu no começo do ano, e havia milhares de pessoas cantando as músicas, não lançadas aqui, no show Cage the Elephant.

Não apenas isto, já pudemos presenciar casos de bandas nacionais e estrangeiras fazendo shows graças a esforços de seus fãs, com meios obtidos por crowdfunding. Veja, não é um novo modelo de negócio?

Porém, ainda existe a pirataria. Não que a música digital seja cara, o álbum baixado acaba sendo normalmente mais barato que o CD, só que se antes você comprava um ou dois CDs por mês, quando muito, hoje você consome a música em uma intensidade muito maior, o que a encarece no final de um período. E não só isto, é um fato que baixar música ilegalmente é fácil e rápido, não adianta negar.

Portanto, o modelo de comercialização de músicas, difundido pelo iTunes e outras lojas virtuais, foi o encontrado para substituir a  venda dos álbuns físicos, mas, na minha opinião, não é o definitivo. Ele apresenta falhas, as quais eu posso enumerar:

– concorre diretamente com a pirataria, pois uma vez baixado, não há como diferenciar música legal da ilegal;

– mesmo que pequeno, as canções possuem um tamanho físico, o que limita a quantidade de música que um dispositivo pode comportar de uma vez;

– é fácil de perder. Um simples vírus, uma falha de hardware ou uma besteira do usuário pode consumir milhares de reais em canções.

Sabe quando dizem, é o que tem para hoje? Isto vale perfeitamente para este mercado. Já que o povo quer ouvir música em MP3, vamos vender  MP3. Simples, fácil, óbvio. Mas falho. Certo, se é falho, qual a solução? Então, este é outro problema, não se sabe qual a solução. Ou não se sabia. Porque, para mim, a solução foi descoberta.

A internet é cheia de rádios online ou lugares para se ouvir músicas em streaming, mas com interfaces confusas, limitações e falhas. Tanto que eu nunca me empolguei com nenhum serviço deste estilo, continuando com meus MP3s e ouvindo as rádios quando decidia ouvir músicas aleatórias.

Isto foi até eu conhecer, esta semana, os serviços da Oi Rdio. Eles agregaram em uma única plataforma milhares de álbuns, incluindo lançamentos, que podem ser escutados de uma forma fácil e intuitiva, seja no computador, tablets ou smartphones. Além disto, funcionam como uma rede social e integram com o Twitter, Facebook e Last.fm.

Só que, como tudo que é bom, custa dinheiro. Após te deixarem experimentar por uma semana, elas passam a cobrar assinatura de R$ 15,00 mensais (existe uma opção mais barata, para se ouvir apenas no desktop). E eu, que nunca paguei assinatura de nada na internet, decidi pagar. Porque vale a pena.

E aqui parece que descobrimos um novo modelo de negócios para a venda de álbuns. Não, você não compra o álbum, por isto seu artista favorito não receberá o disco de ouro este ano, mas compra o direito de ouvir este e tantos quantos você quiser, quantas vezes quiser. A nova indústria da música não está mais no seu MP3 Player, está na nuvem, e vai continuar lá. E pagando direitos autorais aos artistas.

Percebe-se, agora, que a demora em se criar uma solução real para o fim dos CDs se deu por fatores limitadores da tecnologia, no caso a questão da banda de internet. E considerando que esta banda vai aumentar cada vez mais, podemos dizer que seu iPod está perto de se tornar obsoleto. A não ser que ele contenha aquele material exclusivo, daquele show secreto da sua banda favorita, que ninguém mais tem. Mas daí é outra história.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para O novo modelo de negócios da indústria musical

  1. Fábio Mendes disse:

    O grande problema da indústria fonográfica é que ela não se adaptou aos novos tempos. Quando o rádio começou a veicular música, houvem quem achasse que as pessoas não iam mais comprar discos. Mas eles se adaptaram tão bem à novidade que passaram a investir na divulgação via rádio.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s